Fauna notável de Campinas: endêmicas, extintas e comuns de destaque
A fauna de Campinas reflete a posição da cidade na zona de transição entre cerrado e mata atlântica — dois biomas que, antes da ocupação humana europeia, abrigavam uma fauna diversa de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e invertebrados. A urbanização e a agricultura reduziram drasticamente essa fauna, mas fragmentos remanescentes como a Mata de Santa Genebra e a APA de Campinas ainda mantêm espécies notáveis, incluindo grandes predadores e espécies ameaçadas de extinção.
O inventário da Mata de Santa Genebra
A Mata de Santa Genebra é o fragmento florestal mais bem estudado da Região Metropolitana de Campinas. Segundo a Prefeitura Municipal de Campinas, a fauna vertebrada da mata conta com 365 espécies identificadas: 247 aves, 56 mamíferos, 38 répteis, 20 anfíbios e 4 peixes. Os invertebrados incluem mais de 700 espécies de borboletas. A Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO), que administra a unidade de conservação, e o ICMBio têm investido em monitoramento com armadilhas fotográficas desde 2012.
Um estudo publicado em 2025 na revista Biota Neotropica por pesquisadores da Unicamp identificou 181 espécies de aves na periferia da Mata de Santa Genebra — número que representa aproximadamente 21% de todas as espécies registradas no estado de São Paulo e quase 48% das encontradas no município. O estudo, conduzido ao longo de um ano com observações semanais, documentou desde herbívoros como a jacuaçu (Penelope obscura) até onívoros e insetívoros de borda, como a coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e o tico-tico (Zonotrichia capensis). Os autores verificaram dominância de espécies típicas de áreas abertas e bordas de floresta, reflexo da configuração alongada do fragmento, que intensifica o efeito de borda.
A onça-parda: símbolo da resiliência da fauna campineira
A onça-parda (Puma concolor), também conhecida como suçuarana, leão-baio ou onça-vermelha, é o maior predador ainda presente em Campinas. Em 2003, foi feito o primeiro registro fotográfico de uma suçuarana na Mata de Santa Genebra. Desde então, armadilhas fotográficas monitoram a espécie continuamente. Em dezembro de 2024, câmeras registraram uma fêmea acompanhada de três filhotes — apenas o segundo registro de ninhada com três filhotes na unidade de conservação. O biólogo Thomaz Barrella, da FJPO, destacou que a presença de um grande predador indica um ambiente relativamente equilibrado.
Atualmente, há registros de duas fêmeas adultas no território da mata, um fato notável dado que onças-pardas são animais solitários e territorialistas. Os biólogos acreditam que a fêmea mais velha permitiu que uma de suas filhas permanecesse na área, num possível processo de sucessão territorial. A espécie, classificada como vulnerável no estado de São Paulo, enfrenta ameaças como perda de habitat, caça e atropelamentos. Para garantir sua preservação, a FJPO planeja conectar a Mata de Santa Genebra a outras áreas protegidas por meio de um corredor ecológico, ligando-a à Fazenda Rio das Pedras e à APA do Ribeirão Cachoeira.
A jaguatirica e os felinos de menor porte
A jaguatirica (Leopardus pardalis) também figura entre os felinos presentes na região. Em 2003, uma jaguatirica foi encontrada morta por atropelamento em estrada próxima à rodovia SP-332 (Campinas–Paulínia), provavelmente circulando pela Mata de Santa Genebra. A espécie figura na lista vermelha da fauna ameaçada de extinção no estado de São Paulo, assim como o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus). A presença desses felinos de médio porte reforça o papel da Mata como refúgio para predadores que exigem áreas relativamente preservadas.
O lobo-guará na APA de Campinas
O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) — maior canídeo silvestre da América do Sul e espécie endêmica do continente — está presente na Área de Proteção Ambiental (APA) de Campinas, especialmente nas zonas rurais de Sousas e Joaquim Egídio. Classificado como vulnerável pelo Ministério do Meio Ambiente, o lobo-guará é um semeador natural de florestas, dispersando sementes ao se alimentar de frutos silvestres. Na APA de Campinas, o animal tem sido registrado por câmeras de monitoramento, mas sofre com o atropelamento em rodovias e a perda de habitat causada pela expansão de loteamentos de alto padrão. O Plano de Manejo da APA prevê Áreas de Recuperação Ambiental (ARA) que funcionariam como corredores ecológicos conectando fragmentos florestais ao refúgio da vida silvestre Mata Ribeirão Cachoeira.
Mamíferos de médio e pequeno porte
A Mata de Santa Genebra abriga uma comunidade diversificada de mamíferos de médio e pequeno porte. Entre os primatas, destacam-se o bugio (Alouatta guariba), cuja vocalização pode ser ouvida a até 5 km de distância, e o macaco-prego. Os marsupiais incluem o gambá-de-orelha-branca e a cuíca-de-cauda-grossa. Entre os carnívoros de pequeno porte, ocorrem o cachorro-do-mato, o gato-mourisco, o mão-pelada (guaxinim), e o furão. A lontra (Lontra longicaudis), espécie ameaçada de extinção, também é citada na fauna da APA de Campinas, associada aos cursos d'água da unidade.
O sauá (Callicebus nigrifrons), um primata de médio porte com pelagem amarelada e vocalização potente, é outra espécie ameaçada presente na APA. O veado-catingueiro (Mazama gouazoubira), cervídeo de pequeno porte (cerca de 16 kg), também habita as áreas de mata da região, sendo um bom nadador que busca refúgio na água quando perseguido.
Aves de destaque
A avifauna de Campinas é o componente mais bem documentado da fauna local. Na Mata de Santa Genebra, as espécies mais comuns incluem o tiê-do-mato-grosso, a rendeira e o tangará. O estudo de 2025 da Unicamp documentou espécies com funções ecológicas essenciais: o urubu-de-cabeça-preta na remoção de carcaças, os beija-flores (como Chlorostilbon lucidus e Thalurania glaucopis) na polinização, e o sabiá-poca e o saltador-fuliginoso na dispersão de sementes.
Um achado notável do estudo foi o registro de um tangará híbrido, resultante do cruzamento entre o tangará-dançador (Chiroxiphia caudata) e o tangará-de-garganta-preta (Antilophia galeata). Esta última não havia sido registrada em levantamentos anteriores, indicando uma possível chegada recente associada à degradação florestal. Os autores sugerem que a hibridização pode ser uma resposta a condições de habitat alteradas.
Os pesquisadores também observaram a provável extinção local da jacupemba (Penelope superciliaris) na mata, substituída pelo jacuaçu (Penelope obscura), possivelmente devido a pressões antrópicas. Este é um dos poucos casos documentados de extinção local de uma espécie de ave na região de Campinas.
Espécies em declínio ou localmente extintas
Estudos compilados pela Wikipedia, com base em fontes da FJPO, indicam que espécies como a paca e a cutia tornaram-se menos frequentes na Mata de Santa Genebra, embora não necessariamente extintas. A paca, segundo maior roedor do Brasil (cerca de 9 kg), sofre principalmente com a caça e a redução de habitat.
O Decreto Estadual nº 63.853, de 27 de novembro de 2018, do governo de São Paulo, declara as espécies da fauna silvestre no estado regionalmente extintas, ameaçadas de extinção, quase ameaçadas e com dados insuficientes. Este decreto é a referência legal para classificar o status de conservação das espécies mencionadas nesta seção. A Mata de Santa Genebra abriga animais que constam na lista vermelha da fauna ameaçada de extinção do estado de São Paulo, incluindo onça-parda, jaguatirica, gato-do-mato-pequeno e outras espécies.
Borboletas e invertebrados
A Mata de Santa Genebra mantém um borboletário mantido pela FJPO, e mais de 700 espécies de borboletas já foram catalogadas no fragmento. Este número representa um dos inventários de Lepidoptera mais completos do estado de São Paulo para um fragmento florestal urbano.
Corredores ecológicos e o futuro da fauna campineira
A viabilidade da fauna de Campinas depende da conectividade entre fragmentos. A Mata de Santa Genebra faz parte do Projeto Corredor das Onças, que busca ligá-la ao Matão de Cosmópolis, permitindo o fluxo gênico de grandes mamíferos. Na APA de Campinas, o Plano de Manejo prevê corredores ecológicos conectando fragmentos de floresta estacional semidecidual ao refúgio da Mata Ribeirão Cachoeira. A pressão urbana sobre esses corredores — especialmente a expansão de loteamentos em Sousas e Joaquim Egídio — representa o principal desafio para a manutenção da fauna notável de Campinas.